"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse sempre a novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias."
sexta-feira, 19 de abril de 2013
A lua de hoje
Olhei para a lua, ela refletiu em meus olhos. Um episódio de filme de terror passou pela minha mente. Aquela sensação de medo, um calafrio, o silêncio. Admirei a imagem, tão bela, de um astro que reluzia ouro e expelia paixão. E ao mesmo tempo escondia-se por detrás do crepúsculo. Exalava um ar diferente apresentando-se dissimulada, faceira, fátua, aterrorizante, ausente de pudicícia. Contemplei aquele risco de penumbra que cobria seu encanto, o seu sorriso intrépido. Por um instante pensei ter ouvido um som de órgão surgindo do interior daquela cena, um som quase surdo, como se fosse concebido por lembranças, pensamentos. Um arrepio subiu pelo meu corpo, minhas pupilas dilataram. Fui dormir!
Deitei na minha cama, quente e aconchegante com aquela imagem tão encantadora e ao mesmo tempo tão monstruosa impregnada na minha mente e com ela adormeci. Após isso não tenho certeza da veracidade do que estou relatando, pois eu estava possuída por um sono profundo.
A janela se abriu ,- a essa altura meu corpo já estava descoberto - um vento frio soprou sobre mim. Meus cabelos balançaram, o quarto de repente se tornou mórbido, lânguido.Eu relutava, tentava me livrar de algo com as mãos. Um pesadelo assombrou meu sono. Uma sombra estranha me tampou quase por completo, a sombra de uma figura que aparentava usar chapéu e capa. Um cheiro de cigarro. Eu estava suada, aterrorizada. Por um instante senti um toque na minha perna, congelei! Depois um afago no rosto e nos cabelos. O toque daquela mão era áspero, gélido. Parecia mais o toque da morte, do próprio demônio.E de repente a coisa começou a me cheirar, como se eu emitisse um perfume diferente, novo! Como se eu fosse uma rosa vermelha a espera de um nariz estranho pronto para admirar seu perfume. Aquele barulho de fungadas me incomodou ainda mais, meu pesadelo parecia ser real, aquilo me deu medo mas não conseguia acordar.
De repente um hálito morno veio de encontro ao meu pescoço, um abraço sufocante, um beijo envenenado e eloquente. Tive a certeza de que minha vida acabaria ali, estava pronta!
Uma dor inexplicável. Durante um bom tempo só conseguia enxergar a cor vermelha que intercalava entre o roxo e o preto, meu corpo começou a suar ainda mais. Ouvi uma risada, um grito e de novo o silêncio. Um silêncio tão profundo que tornou-se ensurdecedor. Só consegui ouvir o tic-tac do relógio que repousava em cima do criado mudo.
O sol nasceu, acordei tarde naquele dia já era quase uma hora. Abri os olhos e me lembrei daquilo que havia sonhado, um sonho que parecia ser tão palpável. Meu corpo estava estranho, talvez exausto pela noite de pesadelos. Passei o dia todo deitada no sofá da sala assistindo TV com a cortina fechada porque minha cabeça doía e a luz que entrava só fazia aumentar a dor. Adormeci no sofá, uma luz negra entrou pela sacada e de repente me vi vestida com um vestido vermelho, deitada, imóvel... como se fosse objeto. Uma figura sagaz surgiu por entre as cortinas, tomou-me pelos braços e desapareceu.
Meu corpo mole balançava sob os braços desconhecidos que corria rumo ao nada. E ela estava lá, encoberta por sua penumbra de nuvem preta. Tão bonita, cheia de audácia. A lua zombava de mim. E diante dela um homem fugia com o corpo de uma mulher. Lembro-me de ter ouvido um som de órgão, um uivo, o silêncio. A luz da lua me iluminava, seu foco vinha diretamente a mim, eu era sua estrela, sua prenda. Fui levada pelo meu carrasco, os lábios vermelhos, os olhos negros, ... ,o gosto de sangue! Um robô, aos comandos de um astro.
terça-feira, 2 de abril de 2013
infância e saudade
Deus mandou o sol brilhar,
Cair a chuva,
abrir a flor!
Manda as aves,gorjear
E tudo assim se fez!
Deus mandou o capim crescer,
e os vegetais frutificar!
Belos rios fez correr,
e tudo assim se fez!
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