A rua a noite era silenciosa, as vezes ouvia-se o barulho de algum carro que ousava a passar por ali, ou de alguém voltando a pé para casa depois de uma noite de trabalho ou de farra. As vezes passos surdos, as vezes passos barulhentos. De dia era quase movimentada- não muito. A vezes a dona de casa saia para ir ao supermercado comprar algo que precisasse ou as pessoas saiam de suas casas por algum outro motivo qualquer. Aqueles que não tinham o que fazer sentavam em cadeiras, tamboretes, em um toco toco, tijolo, até mesmo na calçada da porta de suas casas e ali ficavam a velar o tempo e o concreto do asfalto que cobria a rua. Ou bisbilhotando a vida alheia mesmo .De tardezinha os alunos que saiam da escola que tinha lá perto preenchiam a rua com o som das suas vozes e dos seus passos. Mas a maior parte do tempo quem permanecia ali eram as crianças das casas que compunham a rua, brincando de alguma coisa, conversando ou ate mesmo sem fazer nada.
E era neste lugar, nessa rua simples de cidade de interior que ela ficava.
Tinha um muro extenso e alto - exceto uma parte dele que ficava “de trás da casa” que era um pouco baixo -, um portão grande amarelo que cobria tudo, paredes brancas, piso azul, uma área e um quintal enormes. Fora os 2 quartos, os banheiros, a sala, a cozinha, a despensa. Não era de luxo, mas era confortável e aconchegante. Era boa o bastante para mim!
Para mim ela sempre será a maior casa do mundo. Toda vez que chegava de viagem, da escola, ou acordava do sono da tarde sentia o cheiro dela –não sei descrever o cheiro mas sei que é único pois nunca mais o senti em nenhuma outra casa que entrei, inclusive no apartamento em que moro hoje – e esse cheiro permanece na minha memória mesmo depois de tanto tempo e espero que daqui não saia, pois quando ele vem em minha mente – normalmente em momentos de chuva, solidão, angustia... momentos em que a realidade pesa – bate a saudade, a vontade de ser criança novamente, de voltar no tempo só para poder ter a rotina que tinha quando vivia ali.
Lembro me dos meus cachorros, das festas de aniversário, das brincadeiras, das visitas, das vizinhas que iam lá por algum motivo, da minha cama, do meu quarto.
Não sei explicar... são tantas as lembranças que chego a me afogar nelas. Essas coisas que vão e não voltam e deixam marcas, não sequelas, mas coisas boas, memórias e saudades.
Infelizmente a vida continua e sofre mudanças. Quando me mudei de lá não dei a mínima, uma vez que já estava passando da hora de vir para cidade grande. Mas depois que a gente bate de frente com a vida de grandes centros urbanos percebemos o quão as coisas são diferentes e complicadas.
As vezes desejo o meu cantinho de volta, de ser rodeada por toda aquela simplicidade, de acordar cedo com a empregada trazendo meu leite quente na mamadeira, de brincar, de deitar no tapete vermelho da sala e assistir meus desenhos preferidos na TV ... de ir para escolinha, das professoras (tias), dos amigos ... De esperar meu pai a noite e dormir no canto dele, dos vizinhos, da vida que tinha lá. É aquela coisa: só damos valor nas coisas depois que passam, depois que as perdemos.
O que torna aquela casa especial é tão somente a simplicidade e a intensidade dos momentos que vivi ali, não eram intensos naquela época, mas hoje eu vejo que são. Foi lá que aprendi a acreditar em papai Noel,a ler e a escrever minhas primeiras palavras, que caiu o meu primeiro dente de leite, que brinquei de boneca, que passei a maioria dos meus aniversários, que tive meus primeiros amigos. É naquela casa que permanece a minha infância e parte da minha adolescência. É lá que permanece uma parte de mim. Por isso ela é especial, é meu tesouro escondido no baú.
Ela vai ficar comigo - não na forma física mas na forma de espírito- mesmo que os anos venham e a idade aumente, nunca vou me esquecer do cheiro, do formato, das cores, dos momentos, da simplicidade, do aconchego.
Saudade de lá, da minha velha casa grande, bonita e tão cheirosa. Saudade da minha velha casa da rua 7.





