segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A casa da rua 7





A rua a noite era silenciosa, as vezes ouvia-se o barulho de algum carro que ousava a passar por ali, ou de alguém voltando a pé para casa depois de uma noite de trabalho ou de farra. As vezes passos surdos, as vezes passos barulhentos. De dia era quase movimentada- não muito. A vezes a dona de casa saia para ir ao supermercado comprar algo que precisasse ou as pessoas saiam de suas casas por algum outro motivo qualquer. Aqueles que não tinham o que fazer sentavam em cadeiras, tamboretes, em um toco toco, tijolo, até mesmo na calçada da porta de suas casas e ali ficavam a velar o tempo e o concreto do asfalto que cobria a rua. Ou bisbilhotando a vida alheia mesmo .De tardezinha os alunos que saiam da escola que tinha lá perto preenchiam a rua com o som das suas vozes e dos seus passos. Mas a maior parte do tempo quem permanecia ali eram as crianças das casas que compunham a rua, brincando de alguma coisa, conversando ou ate mesmo sem fazer nada.
E era neste lugar, nessa rua simples de cidade de interior que ela ficava.
Tinha um muro extenso e alto - exceto uma parte dele que ficava “de trás da casa” que era um pouco baixo -, um portão grande amarelo que cobria tudo, paredes brancas, piso azul, uma área e um quintal enormes. Fora os 2 quartos, os banheiros, a sala, a cozinha, a despensa. Não era de luxo, mas era confortável e aconchegante. Era boa o bastante para mim!
Para mim ela sempre será a maior casa do mundo. Toda vez que chegava de viagem, da escola, ou acordava do sono da tarde sentia o cheiro dela –não sei descrever o cheiro mas sei que é único pois nunca mais o senti em nenhuma outra casa que entrei, inclusive no apartamento em que moro hoje – e esse cheiro permanece na minha memória mesmo depois de tanto tempo e espero que daqui não saia, pois quando ele vem em minha mente – normalmente em momentos de chuva, solidão, angustia... momentos em que a realidade pesa – bate a saudade, a vontade de ser criança novamente, de voltar no tempo só para poder ter a rotina que tinha quando vivia ali.
Lembro me dos meus cachorros, das festas de aniversário, das brincadeiras, das visitas, das vizinhas que iam lá por algum motivo, da minha cama, do meu quarto.
Não sei explicar... são tantas as lembranças que chego a me afogar nelas. Essas coisas que vão e não voltam e deixam marcas, não sequelas, mas coisas boas, memórias e saudades.
Infelizmente a vida continua e sofre mudanças. Quando me mudei de lá não dei a mínima, uma vez que já estava passando da hora de vir para cidade grande. Mas depois que a gente bate de frente com a vida de grandes centros urbanos percebemos o quão as coisas são diferentes e complicadas.
As vezes desejo o meu cantinho de volta, de ser rodeada por toda aquela simplicidade, de acordar cedo com a empregada trazendo meu leite quente na mamadeira, de brincar, de deitar no tapete vermelho da sala e assistir meus desenhos preferidos na TV ... de ir para escolinha, das professoras (tias), dos amigos ... De esperar meu pai a noite e dormir no canto dele, dos vizinhos, da vida que tinha lá. É aquela coisa: só damos valor nas coisas depois que passam, depois que as perdemos.
O que torna aquela casa especial é tão somente a simplicidade e a intensidade dos momentos que vivi ali, não eram intensos naquela época, mas hoje eu vejo que são. Foi lá que aprendi a acreditar em papai Noel,a ler e a escrever minhas primeiras palavras, que caiu o meu primeiro dente de leite, que brinquei de boneca, que passei a maioria dos meus aniversários, que tive meus primeiros amigos. É naquela casa que permanece a minha infância e parte da minha adolescência. É lá que permanece uma parte de mim. Por isso ela é especial, é meu tesouro escondido no baú.
Ela vai ficar comigo - não na forma física mas na forma de espírito- mesmo que os anos venham e a idade aumente, nunca vou me esquecer do cheiro, do formato, das cores, dos momentos, da simplicidade, do aconchego.
Saudade de lá, da minha velha casa grande, bonita e tão cheirosa. Saudade da minha velha casa da rua 7.

"Só se vê bem com o coração,o essencial é invisível aos olhos." O pequeno príncipe ;)

sábado, 15 de outubro de 2011

Passagem...

Um tempo que precisamos, um tempo só meu. Enxergar o que ainda não foi enxergado e entender o que ainda está subentendido. Me amar sem deixar de amar aquele que ainda existe em mim. Olhar para dentro, para o interior de tudo. Desdobrar-me de dentro para fora, enxugar as lágrimas e fingir que tudo está bem... que tudo não passou de ilusão. E de repente acordar e ver que era apenas um sonho, voltar a rotina, ao que era e perceber que tudo voltou ao normal.

Meu corpo vai ficar aqui vazio e ausente, nessa ausência que esta contida em mim, a ausência de tudo a minha volta.

Ao olhar pro lado e ver que sua sombra ainda permanece ali, mesmo que você não esteja, vai me dar a certeza de que é passageiro. E eu junto a ela esperarei ansiosa, cada segundo do tempo que passar, pelo seu retorno.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Simplesmente, simples!

Hoje tive desejos simples, desejo de coisas que sempre me fizeram bem. Desejo do nada, desejo do silêncio, desejo de abraçar bem forte e profundamente meus tesouros, desejo da minha família, desejo de você. Essa simplicidade que pouco me rodeia, essa necessidade de me afundar em devaneios, no meio do nada, no escuro, sozinha. De sonhar acordada e querer acreditar que tudo é simples, fácil. Sozinha no meu quarto, com a luz apagada, a manta cobrindo as pernas e a luz de um abajur velando minha alma que lê empolgada as páginas de um romance. De dançar eternamente, da luz do sol que atravessa a janela do quarto da chácara pela manhã, do cheiro da casa das minhas avós. De dormir com a pessoa amada sentir o afago e o conforto, o cheiro, a paz e a maciez da pele e dos cabelos, os beijos quentes e os abraços calorosos. De passar a tarde com os primos como antes mesmo que não tenhamos mais nenhuma ou pouca intimidade. De beijar a face daqueles que necessitam ser beijados, dormir ouvindo a voz de quem lhe quer bem. Das noites bem dormidas, das palavras faladas e dos momentos inesquecíveis. Da presença de amigos que não estão mais por perto. De estabelecer contatos mais intensos. De não ter medo do mundo e nem medo de ser feliz... Só tive vontade. Não vontade de ser rica, ter bens e ser amada por todos. Minha vontade se resume em coisas simples: Ter tempo de ler um bom livro, ter mais contato com pessoas queridas e de ser amada por uma pessoa só. De dançar, sorrir, chorar... de sentir coisas puras e verdadeiras. Ter a inocência de uma criança, o brio de poetas, escrever ate as palavras deixarem de existir. Ser feliz sem ter porque, de viver a vida intensamente. E ser criança eternamente.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

O que fazer?

O que fazer quando a boca se fecha e a alma se retraí? O que fazer quando o corpo não se movimenta mais? O que fazer quando o pensamento se evade? O que fazer quando as palavras lhe faltarem? O que fazer quando a esperança e o desejo recair? O que fazer quando o amor e a compaixão deixar de existir? O que fazer quando nada mais fizer sentido? O que fazer quando a vontade acabar? O que fazer quando o silêncio ser um desejo maior? O que fazer quando você quiser puro e simplesmente, que tudo a sua volta, se exploda? Eis a questão...

terça-feira, 2 de agosto de 2011

pour tous la vie

Um coração que bate. Bate sozinho, bate sem ver, bate ritmicamente. Que bate por alguém, bate por que quer, bate sem querer. Mantém a vida ilesa, mantém a vida como ela é, como ela tem que ser. Da continuidade, mantém o padrão, mantém o bem e o mal querer... E tudo anda assim, como ele quer. Mesmo quando ferido, machucado, entorpecido de dor o ritmo não para. Mesmo quando esta abarrotado de orgulho, ódio, medo ou abarrotado de felicidade, esperança, amor... Ele bate!!!  Bate porque tem que bater. Ele bate porque é o normal, ele bate porque é o ciclo natural do viver. Bate para nos manter vivos, mesmo que não haja o querer. Bate porque é a sua função, bate porque foi feito simplesmente para bater. Não tem como parar, não basta querer, ele bate porque tem que bater, por vontade própria, involuntariamente, ele só bate. Bate mesmo com sua ausência, bate mesmo que você não sinta, bate mesmo sem que haja vida. Ele bate porque tem que bater. Bate por toda uma vida...

sábado, 16 de julho de 2011

The call







"Começou como um sentimento
Que cresceu e se tornou uma esperança
Que se transformou num pensamento silencioso
Que se transformou numa palavra silenciosa

E então essa palavra cresceu mais e mais alto
Até ser um grito de guerra

Eu voltarei,
Quando você me chamar
Não precisa dizer adeus

Só porque tudo está mudando
Não significa que nunca
Tenha sido assim antes

Tudo o que você pode fazer é tentar saber
Quem são seus amigos
Enquanto vai para a guerra

Escolha uma estrela no horizonte escuro
E siga a luz

Você voltará
Quando acabar
Não precisa dizer adeus

Agora estamos de volta ao começo
É só um sentimento e ninguém conhece ainda
Mas só porque eles não podem sentir também
Não significa que você tem que esquecer

Deixe as suas memórias crescerem fortes e mais fortes
Até que estejam na frente dos seus olhos

Você voltará,
Quando eles te chamarem
Não precisa dizer adeus"

terça-feira, 21 de junho de 2011

E o tempo parou.

A vida e suas contradições. Momentos de alegria, momentos de tensões. A menina alegre e sorridente mal a vê passar. A menina triste e solitária a vê passar de forma lenta e degradante. Quem não gostaria de ver a vida passar da forma que lhe coubesse? Ter o domínio do tempo é um desejo almejado por todos. "Ah! Agora eu quero dormir" ou "Agora quero dar um role... Mas não tenho tempo." Téc! O tempo parou e foi prolongado. A vida foi vivida mais intensamente e o mundo parado não dava a mínima para o que estava acontecendo. Ele estava imóvel. Enquanto isso, um cidadão prolongava o seu tempo de vida tornando-a menos dolorosa, mais intensa - mais vida! Um peso recaía sobre o solo e o sol iluminava uma face plena. Téc! Tudo voltava ao normal. Os carros corriam pelo asfalto, as pessoas se moviam em torno de sua rotina e de suas vidas vazias, os pássaros voavam, a terra girava e o relógio tal qual o dono do mundo a cada "tic-tac" marcava o tempo de vida de cada cidadão. Tic-tac, quero fazer isso. Tic-tac, quero fazer aquilo. Mas não tenho tempo! Téc! Nada aconteceu Téc,téc,téc! Nada!!! Depois do que havia acontecido, caiu na realidade e viu que tudo não passou apenas de ilusão. O medo se alastrou. O travesseiro afundou e nele uma lágrima quente produzida por olhos profundos caiu temendo as atrocidades que o tempo trazia. Desejou nunca ter nascido. E de repente, na face recaída eis que surge uma expressão meio esperançosa. Um sorriso. E ai percebeu que a ilusão nada mais era que a pura verdade. Téc! E tudo ficou escuro...

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Predestinada

Já era de se esperar que a vida não iria ser tão fácil assim. A chuva caia forte, a casa estava com um tom macabro, as vidas lá dentro contorciam seus corpos, a chuva os deixava preguiçosos. Enquanto isso, no sótão da casa permanecia uma figura. As linhas do seu corpo eram retas, frágeis, estúpidas. Mas como não deveria de ser, ela só tinha doze anos, o corpo ainda não era formado. Ela olhava fixamente dentro de um baú e de dentro dele saia uma luz amarela ofuscante. Não dava para ver o que era exatamente, mas ela estava ali diante dele, ajoelhada, olhando para o seu interior. Observava-o tão fixamente, hipnotizada que se fosse um abismo com certeza haveria a suspeita de que sua intenção era saltar. Um barulho de passos surgiu, rapidamente ela acordou do transe e fechou o baú colocando-o no lugar em que sempre ficava, escondido embaixo da mesa velha coberta com um lençol branco. Era a mãe dizendo que já era hora de dormir. Ela foi, deitou e dormiu profundamente. Sonhou com seu baú. No outro dia levantou cedo, uma das empregadas já esperava para ajudar a se lavar e a se trocar. Tomou seu café da manhã e foi para o jardim brincar com o irmão. Mais de 'tardezinha' após o almoço sentou em baixo de uma macieira e ficou a contemplar as nuvens brancas, gordas que se movimentavam de um lado para o outro. Pensou no seu baú. Queria muito estar com ele naquele momento, porém era arriscado demais alguns dos empregados, ou até mesmo o irmão poderiam sentir sua falta e quando fossem procurar poderiam descobrir o seu segredo, contar para os seus pais e ai tudo estaria acabado. A melhor hora de ir visitá-lo era depois do jantar: O irmão já dormia, o pai sentava em sua poltrona e ia ler um livro, a mãe ia costurar. Quando todos da casa concentravam suas mentes em outra coisa que não ela era a hora certa de ir contemplar o seu querido baú dos sonhos. Era nele que guardava seus sonhos mais profundos, era ali que podia sonhar em segredo sonhos que na vida real sabia muito bem que eram impossíveis de serem realizados. Porém um dia como outro qualquer aconteceu o inesperado. Subiu ao sótão como todas às noites fazia, quando levantou o lençol e tateou por debaixo da mesa procurando o seu objeto secreto levou um susto. Um grito. Ela não acreditava naquilo que os olhos não podiam ver e suas mãos não podia tocar: Ele não estava lá. A mãe e o pai subiram rapidamente e se depararam com a filha caída no chão, aos prantos. Perguntaram o que havia acontecido. Como estava muito fraca, pasma, enjoada apontou na direção do espaço em que vivia o seu baú e o pai logo percebeu o que estava acontecendo e disse que tinha o tirado dali. Ela levantou e se jogou sobre o pai, perguntando porque ele tinha feito aquilo. O pai logo respondeu: "O que você guardava lá dentro era muito perigoso, poderia dar ideias revolucionárias para a sua cabeça e você se tornaria uma pessoa estranha demais para a sociedade e até mesmo para nós. As empregadas um dia notaram a sua falta e foram lhe procurar. Uma delas viu você aqui mesmo contemplando um baú velho como se fosse um objeto inusitado e se assustou com o seu olhar. Disse-me que seus olhos estavam negros, parecia mais o demo. Fui verificar e encontrei um bando de barbaridades que pessoa nenhuma nesse mundo deveria pensar, ver ou ouvir. Então peguei aquele objeto inútil e o joguei no fundo de um lago negro para ter a certeza que nunca mais você ou qualquer outra pessoa teria contato". Ficou pasma.Ela não acreditava no que o pai tinha feito, ele havia destruído os seus sonhos. Deitou no chão em posição fetal e começou a chorar novamente. A mãe beijou-lhe a face e desceu junto com o pai deixando-a ali jogada como se fosse nada. Ai ela se lembrou que um descuido seu tinha gerado tudo aquilo. Em uma tarde não foi para o jardim brincar estava tão viciada no conteúdo do baú que teve de ir contemplá-lo. A culpa era dela, não devia ter ido, podia ter esperado até de noite só que a vontade era tanta que a possibilidade de que poderia ser pega foi reduzida, afinal seria só daquela vez! Ficou uma semana lá, deitada olhando para o espaço vazio tentando de alguma forma preenchê-lo e preencher também o buraco que tinha sido aberto no seu coração. Ela não saberia o que ia acontecer nessa vida nova, amputada. Então, levantou-se, enxugou o rosto ensopado de lágrimas e foi rumo ao seu quarto. Tomou um belo banho, passou perfume, arrumou o cabelo, vestiu o seu melhor vestido e desceu. Cumprimentou com um belo "Bom dia!" as pessoas em volta da mesa. A mãe retribuiu com um sorriso, o irmão fingiu que não ouviu, o pai que lia o jornal apenas levantou os olhos por um momento. Então sentou-se a mesa e comeu como se nada tivesse acontecido. Em meio a tanta indiferença ela sabia que sua realidade era aquela, viver os sonhos não seria possível pelo menos não naquele momento, com aquele família, com todos os valores que a rodeava naquele tempo. Ela simplesmente se conformou. Sabia que não poderia mudar nada e viveu a vida que realmente havia nascido para viver... (datado de:18-05-2011)

Indiferença

O pensamento se evade. Enquanto isso, a alma cansada se arrasta pelo solo e o homem ao seu lado finge que não a vê. Atitudes incompreensíveis: A alma arrasada se arrasta em círculos procurando respostas. O homem abre a janela, acende um cigarro e fica ali a refletir. Ambos seres opostos que na intimidade do seu interior se completam. Porém, não conseguem perceber a importância que um exerce sobre o outro. E assim continuam nessa jornada, sem a emissão de uma atitude se quer. (datado de:03-11-2010)